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Recordar Herminia Silva

por pauloconde, em 07.06.04

 

   

 

É sempre gratificante falar de fado, sobretudo quando nos imiscuímos nas suas raízes, quando o fado deixa de ser simplesmente a canção mais representativa do sentimento português e atravessa a complexidade da alma dos que o vivem, daqueles para quem o fado é uma forma de vida, sem aprumos de circunstância nem vaidades mascaradas, mas apenas um acto tão natural e tão reflexo como o pulsar do coração.

É de alguém assim que me apraz falar. Vítor Duarte, neto de Alfredo Marceneiro, alguém por quem nutro carinho e admiração, companheiro na investigação do fado, o qual, após ter perpetuado em livro o saudoso interprete e compositor Alfredo Duarte Marceneiro, brinda-nos agora com um “Recordar Hermínia Silva”, absolutamente oportuno, pecando por tardio, já que a interprete mais castiça da história recente do fado, há muito era merecedora de um tributo para que a memória não esqueça.

“…Era dotada de um dom especial, que só muito poucos têm, de cantar e representar muito bem, era um representar que não se estuda no «Conservatório», com a sua voz bem castiça, dava um cunho muito pessoal às suas interpretações que deliciavam a quem a escutava, quer no fado tradicional, quer no fado revisteiro, mas na revista para além de cantar interpretou figuras e «meteu buchas» que fizeram o delírio de milhares de espectadores…”

É com esta sinopse que o investigador dá inicio às mais de duzentas páginas a retratar uma mulher de diversas facetas artísticas, sempre ligadas ao fado, os seus poetas, os seus músicos e as saborosas entrevistas da senhora da “Velha tendinha” permitem-nos confirmar que o segredo da sua arte e do seu talento estavam no talento da sua arte, imune a encostos acolhedores ou sombras confortáveis.

Obrigado ao autor por esta pertinente obra, principalmente porque o fado é um estado de alma, como certeiramente o definiu Vítor Duarte.

  

 

Paulo Conde - Diário de Noticias - 2004

 

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publicado às 14:05


A mais-valia de um champô

por pauloconde, em 05.06.04

 

A nossa incongruente Ministra das Finanças, quando confrontada com o facto da não declaração de mais-valias que inocentemente se terá esquecido de declarar dentro dos prazos previstos por lei, ostentou a imoralidade, ao alvitrar que todos os contribuintes cumpridores procedem de irregular forma, quando sugeriu que o profissional de comunicação social que a entrevistava, teria decerto algum recibo dum champô misturado com recibos de medicamentos.

Esta comparação revela uma enorme falta de intelectualidade e sentido de estado, de quem foi eleito para ser um exemplo (pelo menos deveria) de cumprimento para todo um país, e não uma panóplia de incongruências que atingiram o seu auge ao serem equiparados a quinze mil euros de mais-valias (sem multa) com um modesto frasco de champô, cuja única mais-valia será talvez a sua composição.

  

Paulo Conde - Correio da Manhã - 2004

 

 

 

 

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publicado às 12:43


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